Um Homem Singular: Triste Solidão
Vou ser directo: Um Homem Singular é dos melhores filmes que vimos agora no início deste ano e, se tivesse estreado no ano passado nas nossas salas, provavelmente teria entrado directamente no meu top 10 de 2009. É impressionante em todos os aspectos, deste a banda-sonora à realização e passando, claro, pelas geniais interpretações. E é daqueles casos em que um peculiar e audaz estilo visual se alia na perfeição com o argumento, criando uma experiência que tanto tem de sensatorialmente bela como de emocionalmente poderosa.
A história é a de George Falconer (Colin Firth, absolutamente genial), um professor que lida com a trágica morte do seu companheiro dos últimos dezasseis anos, Jim (Mathew Goode). Apoiando-se na sua velha amiga Charlotte (Juliane Moore, também fenomenal no seu papel, como já estamos habituados), George lida com a dor e com a solidão provenientes desta perda, até que um encontro com o seu jovem estudante Kenny (Nicholas Hoult, também em boa forma) lhe possibilitam uma nova perspectiva.

O facto mais notável em Um Homem Singular é não tanto a sua enorme qualidade, mas antes o facto de esta vir de um realizador estreante: Tom Ford, conhecido estilista. O primor visual que se esperava de alguém com esta carreira está presente numa realização que funciona como estilo ao serviço da história. Ford filma de forma magnífica, com um uso de cores e de planos exemplar. A mudança de cores frias e cores quentes, de forma a expressar de forma perfeita os sentimentos das personagens, é notável, e o filme está todo ele filmado com uma serenidade e com um sentido de primor visual arrebatador. Ford é não só um fenomenal artista visual, mas também um excelente contador de histórias, talento esse que mostra aqui na sua primeira produção. A fotografia de Um Homem Singular, os planos, os pequenos detalhes capturados pela câmara, tudo isso é impressionante, mas tudo isso existe como serviço à história e para transmitir ao máximo a alma da personagem principal. Estilo ao serviço da substância, numa realização notável – uma nomeação ao Óscar nem tinha ficado mal…
Mas se realização é em si fenomenal, e se Ford revela aqui um talento impressionante, o elenco está, como seria de esperar, ao mesmo nível. Não há outra forma de dizer: Colin Firth está genial. É facilmente o melhor papel de um actor que sempre demonstrou talento, mas que nunca antes fora bem aproveitado. Aqui, a sua interpretação é de uma sublimidade e de uma profundidade de ir com o queixo ao chão. Não há grandes explosões de tristeza, não há muitas lágrimas… toda a tristeza da personagem vai além de tudo isso, e o espectador sente isso na pele pelo seu olhar, pelo seu tom de voz, pelos seus gestos. Numa altura em que o overacting está tão na moda, é bom ver um actor que efectivamente encarna a personagem da forma mais profunda possível, transmitindo ao espectador um rol de sentimentos que o atingem em cheio na alma. A sua nomeação ao Óscar é mais que merecida e, das interpretações nomeadas que vi até agora – falta-me apenas uma: a de Jeff Bridges, numa interpretação e num filme que parece totalmente diferente -, Firth é, sem a mínima sombra de dúvida, o que mais merece a vitória.

Nicholas Hoult como o jovem Kenny também está impressionante, dando à personagem uma notável camada de inocência de que é difícil não gostar. Mas Julianne Moore está aqui num dos seus melhores papéis dos últimos anos, encarnando na perfeição uma personagem que, mesmo não tendo muito ‘tempo de antena’, fica com o espectador mesmo depois de este ter saído da sala. Os seus maneirismos estão perfeitos e encarna na perfeição uma personagem que captura o espectador desde o momento em que aparece no ecrã, tal como a de Firth, claro. Uma nomeação ao Óscar (ou até mesmo a vitória!) teria sido mais que merecida.
Um Homem Singular é um filme magnífico em todos os aspectos. O seu estilo é único e tem imagens que ficam na memória, mas tudo isso existe ao serviço da história. Não lhe darei nota máxima nem o chamarei de obra-prima porque, apesar de estar muito, muito lá perto, faltou aquele pequeno rasgo para que lá chegasse. Mas é um filme como poucos, que impressiona e comove profundamente ao mesmo tempo, perfeitamente realizado e executado. E é daqueles raros casos em que o filme funciona como uma experiência sensatorial com profundo impacto emocional; tanto num momento faz com que arregalemos os olhos, como no momento a seguir faz com que dele caiam lágrimas. Um filme profundo e tocante. Esperemos que não seja o primeiro e último de Tom Ford.
9/10
Ficha Técnica
Título original: A Single Man
Realizado por: Tom Ford
Escrito por: Tom Ford e David Scearce, baseado no livro de Christopher Isherwood
Elenco: Colin Firth, Juliane Moore e Nicholas Hoult
Duração: 101 minutos.






