O Mensageiro: Banalismo Dramático

Gonçalo Trindade 26 Fevereiro 2010

Há uma expressão muito curiosa que se usa frequentemente quando não sabemos bem se gostámos ou não de um filme: “não aquece nem arrefece“. E realmente é verdade, há filmes que aquecem (de que se gosta) e filmes que arrefercem (de que não se gosta muito). Depois há aqueles que incendeiam, como Shutter Island, e aqueles que congelam, como Precious. O Mensageiro não aquece nem arrefece: está ali no meio. Mas, infelizmente, tende mais a arrefecer que aquecer e acaba por ser, no final, um filme banal e formatado – já vimos aquilo tudo milhares de vezes -onde a única coisa que se destaca são, efectivamente, as boas interpretações.

A premissa soa interessante a original: Will Montgomery (Ben Foster) e Tony Stone (Woody Harrelson) são dois oficiais regressados da guerra do Iraque com a importante missão de notificar os familiares das vítimas mortas no terreno. Isto faz com que entre os dois se crie uma profunda relação de respeito e até amizade. Mas quando Will se envolve emocionalmente com uma recém-viúva (Samantha Morton) notificada pela dupla, levantam-se questões morais e tudo se complica.

Nunca foi mostrado este lado, estes soldados que fazem talvez missões tão duras e psicologicamente tão devastadoras quanto os que estão em combate. Numa altura em que filmes de guerra parecem estar a voltar em força (e The Hurt Locker é, efectivamente, um grande filme), é bom ver um filme original que se atreve a tentar mostrar algo que nunca antes foi mostrado. Mas, infelizmente, O Mensageiro acaba por fracassar.

O problema não está, como já disse, nas interpretações: está em tudo o resto. O argumento acaba por não desenvolver de forma alguma a sua premissa e a história é toda ela bastante banal, nunca explorando verdadeiramente as personagens ou a trama em si. Nada agarra verdadeiramente ou chama a atenção no filme porque nada está particularmente bem pensado ou executado. A realização é, por si só, fraquíssima, francamente desinspirada, e lembra algo que se veria facilmente num telefilme de qualidade ligeiramente mais aceitável. Não há aqui grande talento.

Mas, como já disse, as interpretações são todas elas bastante boas. Woody Harrelson em particular está fenomenal, e a sua nomeação ao Óscar de Melhor Actor Secundário é merecida. O actor, por vezes irreconhecível, consegue verdadeiramente dar uma densidade à sua personagem e faz um excelente papel. O actor encontra-se verdadeiramente numa fase de renascimento de carreira (Zombieland é talvez o exemplo mais óbvio) e é bom vê-lo a dar aqui uma bela interpretação. E o mesmo se pode dizer de Ben Foster, que encarna com carisma e humanidade a personagem principal da trama, criando um homem revoltado e desligado que só numa tarefa tão dramática consegue encontrar o seu lugar. Foster convence em todos os segundos e é um prazer de ver no ecrã. Finalmente temos Samantha Morton. Quem a viu em Control e afins sabe bem do que esta actriz é capaz, e aqui volta a demonstrar o seu talento. É pena que não a vejamos mais vezes.

Não é que O Mensageiro tenha necessariamente algo de mau: apenas não tem necessariamente algo de bom. As interpretações são boas, sim, e há excelentes cenas , como a conversa final entre a dupla. Mas o argumento e principalmente a realização tornam o filme banal e igual a tantos outros que se vêm por aí. Nesta altura em que o cinema de guerra parece estar a voltar em força, resta esperar que o tema seja tratado com maior originalidade e qualidade do que se viu aqui. Porque, como já se viu, tal é possível se houver talento envolvido. Neste caso, parece que tal não aconteceu.

4/10

Ficha Técnica

Título original: The Messenger
Realizado por: Oren Moverman
Escrito por: Alessandro Camon e Oren Overman
Elenco: Ben Foster, Woody Harrelson e Samantha Morton.
Duração: 112 minutos.

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