O Lobisomem: Oldschool Sanguinário
Parece que os vampiros estão na moda. Há filmes, telenovelas e até as notícias mais lidas aqui do site são sempre as que se referem ao novo filme da saga Twilight ou a uma novela qualquer da TVI ou da SIC sobre estas criaturas. Por isso não há mesmo volta a dar: os vampiros voltaram, e é uma moda que pegou.
E os lobisomens? Bem, ficaram para segundo plano. Tivemos alguns vislumbres nos filmes da saga Underworld e em coisas como o Van Helsing, mas nunca são necessariamente as personagens principais, e nunca são um conceito muito explorado. Qual a forma de ressuscitar a moda, então? Bem, porque não fazer um remake do primeiro grande filme de lobisomens alguma vez feito: The Wolf Man, de George Waggner, datado de 1941.

Pois bem, aqui está o remake, com a história mantendo-se praticamente igual e com um elenco de topo. E o filme resulta; muito bem, aliás. Não só pelo excelente elenco, óptimo nas suas interpretações (Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving estão simplesmente fenomenais), mas também pelo próprio espírito do filme: O Lobisomem é bom entretenimento com alma de série B com muitos mais meios que um filme de série B. A história, que nunca se torna nem demasiado séria nem cai na parvoíce, rejeita assim a moda actual de filmes de terror e constitui um dos grandes trunfos da película, criando um filme que consegue o equilíbrio perfeito entre contar realmente uma história que interessa minimamente ao espectador e ao mesmo tempo manter uma existência como puro entretenimento. Porque, para todos os efeitos, este é um filme que vive para divertir o espectador; e fá-lo muito, muito bem.
A história é a de Lawrence Talbot, um nobre que regressa à sua terra de infância a pedido da mulher do seu irmão assassinado (Emily Blunt) e que se dedica então a descobrir exactamente que criatura o assassinou. A resposta é óbvia, tal como já se sabe o que acontece a Talbot e no que ele se transforma. Benicio Del Toro está, numa palavra, perfeito. Dá exactamente a dimensão necessária à personagem, nunca esquecendo as raízes clássicas do filme nem nunca chegando perto do melodramatismo. Eis um homem que se torna em algo horrendo e que luta contra consigo mesmo, contra a transformação inevitável que se aproxima. Há uma cena, após a primeira transformação, em que o olhar de Del Toro exprime por si só a incredibilidade e o horror dos actos cometidos, perante as palavras de Hopkins (que aqui interpreta Sir John Talbot, seu pai) que tanto se têm ouvido nos trailers e afins: “Actos terríveis, Lawrence. Cometeste actos terríveis“.

Se Del Toro está perfeito, pode-se dizer o mesmo do restante elenco. Hopkins parece estar a divertir-se imenso a interpretar esta bela personagem, e tem algumas das linhas de diálogo mais badass dos últimos tempos. Blunt é uma personagem que transporta na perfeição grande parte da humanidade de todo o filme, como a jovem esposa atormentada pela morte do marido. E depois há, claro: Hugo Weaving, no papel do detective da Scotland Yard que tenta descobrir exactamente quem comete os horríveis assassínios. Weaving tem uma presença fenomenal, como já se pôde ver em filmes como Matrix ou até mesmo V de Vingança, onde só a sua voz dá à personagem toda a dimensão que esta precisa, e aqui têmo-lo mais uma vez fenomenal. De facto, a sua personagem é dos maiores trunfos do filme, por ser uma que nunca se simplifica ou chega a extremos: é, apenas, o detective que quer descobrir quem cometeu os crimes, sem fazer mal a ninguém sem que seja mesmo necessário (quantos de nós não têm visto ultimamente as autoridades representadas como aquele detective malvado que se torna obcecado em resolver o crime, chegando mesmo a fazer mal a inocentes…?). Para resumir: o elenco é de peso, e não desilude. É um prazer ver todos juntos no ecrã, e dão ao espectador o nível de interpretação que este espera.

E além da história, das interpretações, e de tudo isso, há ainda que referir algo que, num filme destes, é essencial: o aspecto visual. Londres da era vitoriana está bem recriada, e a fotografia do filme é toda ela negra e densa, como um filme destes bem precisa, mas há, é claro, o aspecto dos lobisomens. E eis aqui um dos lados mais oldschool do filme: os lobisomens são criados através de maquilhagem, não por computador. As transformações em si são feitas por computador, sim (e estão espectaculares, que não haja a mínima dúvida), mas o lobisomem é o actor coberto de um enorme monte de próteses e maquilhagem. E, como tudo o resto no filme, resulta muito bem. Não só porque, de certa forma, humaniza a personagem (reconhecemos o lobisomem como uma personagem real e, como tal, reconhecemos também o homem que antes foi) mas também porque tem, simplesmente, um aspecto espectacular. As garras, a cara, a sua figura enquanto corre pelas ruas ou mata alguém… tudo tem um ar oldschool e místico, mesmo assim visualmente espectacular, sem nunca parecer minimamente datado. Antes o contrário: este é, de longe, o lobisomem mais impressionante que vimos nos últimos anos.

Em O Lobisomem, tudo parece resultar bem. O espírito gore que parece saído de um filme série B está lá, fiel ao original dos anos 40, mas com uma alma mais séria e num filme com mais meios que o normal dentro desse género. Há mortes sangrentas, personagens com as quais o espectador se rala minimamente, e um espírito de diversão que nunca cai no demasiado sério nem no demasiado pateta: O Lobisomem sabe bem o que quer ser, e sabe-o com a confiança de quem sabe que o pode ser. Numa era em que os blockbusters parecem tornar-se cada vez mais simples e, diga-se, patetas (estou a olhar para ti, Michael Bay!), é bom ver um filme que nunca se torna nem numa coisa nem noutra. É bom entretenimento, de qualidade e até de espírito adulto. Há cenas que se tornarão, muito possivelmente, verdadeiros momentos de culto para os amantes do género (aquela cena no hospício…), e o filme mantém todo ele um nível de qualidade constante que nunca defrauda. Entusiasma? Sim. Estabelece uma mínima ligação emocional com o espectador? Sim. Assusta? Sim.
Aliás, é preciso referir isso: O Lobisomem é, em parte, um puro filme de terror. Não há necessariamente muita tensão, mas os saltos na cadeira e os sustos são constantes ao longo do filme. É um filme que quer divertir, sim, mas que quer divertir não com piadas mas sim com momentos de medo e de entusiasmo.
Será dos melhores filmes do ano? Claro que não. É um filme para levar muito a sério? Nem por isso. É entretenimento com alma e de grande qualidade? Sim. Entusiasma, assusta, e diverte. É não só um dos melhores entretenimentos dos últimos tempos, mas também um acontecimento raro: um blockbuster com alma. Comprem pipocas, sentem-se, e divirtam-se: o filme foi feito para isso mesmo. E foi feito muito bem, sim senhor.
8/10
Ficha Técnica
Título original: The Wolfman
Realizado por: Joe Johnston
Escrito por: Andrew Kevin Walker e David Self
Elenco: Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving.
Duração: 102 minutos.






