O Estado da Informação
Em Portugal, o mercado consumidor de media é ávido por informação. Um dado curioso, num país com alguns problemas de iliteracia e onde grande parte da população permanece desligada dos assuntos mais quotidianos da política ou economia nacionais.
Os informativos dos canais generalistas nacionais são presenças frequentes nos tops de programas mais vistos diariamente, a SIC Notícias estabeleceu-se como o único canal informativo no mundo a ser líder de audiências no mercado dos temáticos, os jornais online somam visitantes, e redes sociais como o Twitter e o Facebook consolidam-se como egosfera de opinion-makers instantâneos, que fazem verdadeiros debates sobre as mais diversas situações e temáticas. O jornalismo, assumido desde sempre como o ‘quarto poder’, parece hoje dormir no mesmo quarto do poder e muitos já o assumem como quase inquestionável, encerrando em si os dogmas de uma verdade inalcançável e as justiças que uma inoperante e lenta autoridade portuguesa parece negar a um povo descontente.
Confiar no jornalismo como justiceiro e deixá-lo superiorizar-se ao Estado como garante de igualdade entre os seus cidadãos, como reivindicador de penas e condutor de condenações em praça pública, é um exercício perigoso. Os repórteres que já conhecemos de outras andanças acotovelam-se por mais uma manchete, os políticos de sempre são denunciados em primeiras páginas de cores berrantes. Pelo meio, o presidente do Supremo vem dizer que as escutas reveladas não são suficientes para chegar a alguma conclusão sobre um eventual crime, atirando ainda alguma água para cima do capote do Procurador-Geral da República, que pouco hábil com os mecanismos de comunicação, acaba por ser atropelado por uma opinião pública avassaladora, que exige palavras seguras, dicção perfeita e olhar firme. Estamos numa geração em que a atitude se superioriza ao discurso e em que os gestos são cada vez mais fortes que as palavras. Esperamos um esclarecimento público a este julgamento de rua, esquecendo-nos que ninguém foi condenado e que se a liberdade de expressão é um direito, inegável e adquirido, deveres são o segredo de justiça e a preservação da integridade de cada um.
Pelo meio de linhas escritas com a fúria conhecida e com as objectivas a disparar qual metralhadoras apontadas a um alvo, os jornalistas esquecem-se das regras deontológicas e assumem o papel de novos vingadores, deixando para trás a imparcialidade e exibindo títulos que são os slogans de uma oposição que se esconde por detrás da mesma comunicação social que, há meses atrás, diziam que os prejudicava nas sondagens ou que deveria ter controlo prévio nas suas publicações.
Ninguém ouviu as palavras transcritas destas escutas da arca perdida, ninguém foi condenado por aquele que seria o mais hediondo crime contra o Estado de Direito já cometido em mais de trinta anos de democracia, ninguém sabe na verdade o que se passou. Os bitaites saem para o ar como balões a rebentar violentamente, sobrepondo-se as versões e gerando-se os mal-entendidos. O português comum, sem ideologia política, sente-se ofendido pela confusão gerada, preocupa-se com o seu país e perde-se no meio da informação, que continua a buscar de maneira sôfrega. A informação até aqui tem sido vista como algo que normalmente garante um saber límpido e claro, mas todos tememos que se transforme num mero jogo de citações da conversa do almoço ou no ouvido por detrás da porta dos poderosos, sejam eles quem forem.
O governo nega as tentativas de controlo sobre a comunicação social, a imprensa divide-se, o público não sabe em quem acreditar, as sondagens apontam para novo crescimento do Partido Socialista. Pelo meio perdemo-nos, também já não sabemos se é seguro confiar em sondagens, elas também podem mentir, ser ‘compradas’ em mais um maquiavélico plano de controlo. O primeiro-ministro não esclarece, a providência cautelar gritou a ouvidos moucos, os milhares de jornais saem para a rua em multiplicadas edições, as rádios e televisões dão eco ao bate-boca que se ouve nas mesas do café, se lê na internet ou se vê numa tumultuada e fragmentada Assembleia da República.
Termino este artigo de opinião com aquela que julgo ser uma informação importante: Nenhum órgão de informação, fonte, ou jornalista são infalíveis. A busca pelo sucesso pode conduzir-nos à precipitação. Ao mesmo tempo, os políticos não são inocentes e continuam a virar o jogo para seu lado, variando entre a vitimização e parcos discursos dos atingidos pelas notícias e o sensacionalismo daqueles que perderam as eleições por pouca e má iniciativa e querem agora ganhar pontos na desconfiança do público, semeando a discórdia nas ruas e acentuando o clima de instabilidade que já estamos a vivenciar.
Uma crise está por aqui, nem que seja de reflexão crítica. Devemos ouvir as notícias e os discursos políticos com sentido de responsabilidade, procurando ser imparciais e não demasiado apressados. Afinal, apenas a busca da clara verdade nos pode conduzir à verdadeira inteligência e consequente liberdade. Liberdade das amarras que nos prendem à opinião colectiva, tão frequentemente dominada por mãos invisíveis que tanto podem injectar-lhe a verdade dos acontecimentos como incluir em nós um veneno alterador da realidade. Esta é a liberdade do espírito e da alma, a liberdade do pensamento, que nunca nos podem cortar, nem com lápis azuis, nem com negociatas estranhas e muito menos com matérias jornalísticas de qualidade duvidosa. Pertence-nos a obrigação de manter abertas as portas que alguém descerrou para nós num já longínquo mês de Primavera, não sendo ociosos e lutando para que o sol da democracia continue a iluminar-nos, Abril após Abril, alimentando e deixando florescer em nós o vigor da cor rubra que resplandece sobre todas as novas pétalas dos cravos da nossa Revolução.







Rosa Branca a Dom, 14th Fev 2010 22:02
Depois disto, “Portugal, que futuro?”
Ai…Isto preocupa.me seriamente!:S
Filipe Honório a Seg, 15th Fev 2010 3:58
“que o sol da democracia continue a iluminar-nos” e não outros. ;)
Pedro Pereira a Seg, 15th Fev 2010 15:26
repito: concordo inteiramente com este texto e sublinho a grande capacidade de análise, repleta de rigor e organização, que evidenciaste.
ainda há poucos dias me foi proposto um texto argumentativo sobre a liberdade, na disciplina de portugues.
na altura, referi que a liberdade exige respeito.
agora, acrescento: liberdade exige conhecimento.
os portugueses não têm recebido, de todo, boa informação.
como podemos nós [generalizando] dizer que somos livres, se ainda permanecemos presos à ignorância de não sabermos a verdade dos factos – se não temos uma informação credível, responsável, com real profissionalismo e alheada de interesses políticos?
Pedro A. Afflalo a Seg, 15th Fev 2010 18:40
Muito honestamente sinto-me exausto disto tudo. Num Estado de direito estas situações, mesmo que fossem falsas, deveriam ser esclarecidas para o bem da sanidade mental de todos. É que um Primeiro Ministro que se fecha em copas, e com ele um PGR que nada mais revela, assim como o Presidente do STJ assim como o silêncio gritante do PR contrastam com uma subida galopante do “barulho” da oposição e da sociedade em geral.
Neste momento, a mim, pouco me importa se estas notícias todas são verdade ou mentira. O que eu gostava mesmo era de mais e melhores explicações sobre estes casos todos. Se os visados nestas notícias que têm saído a torto e a direito tivessem já posto os pontos nos is, já esta confusão toda tinha passado e finalmente seria altura de nos concentrarmos todos nos problemas que, estes sim são graves, e comprometedores de um futuro melhor para Portugal, e para os Portugueses.
André Pereira a Ter, 16th Fev 2010 11:57
Concordo com o que foi dito pelo Pedro Coelho… Mas também concordo com o Afflalo quando diz que “O que eu gostava mesmo era de mais e melhores explicações sobre estes casos todos.” Isso sim era importante.