Nas Nuvens: Solidão Dracómica

Gonçalo Trindade 21 Janeiro 2010

Nas Nuvens, o novo filme de Jason Reitman (realizador de Juno) é uma dramédia. Uma dramédia é um daqueles filmes que não são bem uma comédia mas também não são bem um drama: estão algures no meio de um e outro. Ou seja, Nas Nuvens tem graça, sim, mas não é por isso que deixa de ser, no fundo, um drama… mas também não é por ser um drama que deixa de ter verdadeiros momentos de comédia. O filme é bastante cómico; mas também é bastante triste. Porque Nas Nuvens é uma história sobre a solidão.

George Clooney interpreta (e bastante bem) Ryan Bingham, um homem cujo emprego é despedir pessoas de outras empresas, emprego esse que o leva constantemente em viagem por todo o país. Bingham vive no ar, não em terra, e é num avião que se sente em casa. Mas quando Natalie Keener (Anna Kendrick), jovem caloira da empresa, surge com a ideia de fazer osdespedimentos por video-conferência e Bingham é ameaçado a ficar preso num escritório, este decide levar a jovem numa viagem pelo país para esta ver a forma como só assim é possível fazer o que fazem. A isto se alia a relação que Bingham estabelece com Alex Goran (Vera Farmiga), mulher que, tal como ele, vive no ar, e Bingham começa a pôr em causa o estilo de vida que leva.

O argumento de Nas Nuvens é bom (exceptuando alguns diálogos um pouco mais fracos como, por exemplo, o que ocorre entre a personagem de Clooney e o noivo da sua irmã, um momento de lição moral forçado e nada realista) e há ali cenas que realmente colocam um sorriso na cara de qualquer um (aquele primeiro diálogo entre Bingham e Goran, por exemplo), as interpretações também, e a realização é controlada e estável, como Reitman já nos habituou. Nada é verdadeiramente excepcional. Clooney , por exemplo, está igual a si mesmo; mostra alguma vulnerabilidade, mas nada de mais.

Mas Vera Farmiga e Anna Kendrick estão fenomenais. Farmiga tem uma presença espectacular (perfeita para a sua personagem), e simplesmente consegue hipnotizar o espectador; Kendrick é de uma enorme versatilidade, e num momento nos faz rir, como no momento a seguir nos coloca uma lágrima no canto do olho. Estas duas actrizes elevam verdadeiramente o filme e, deste trio de actores, Clooney é efectivamente o mais fraco.

A história consegue prender mas nunca entusiasmar ou agarrar por aí além, e no final Nas Nuvens acaba por ser um bom filme que não tem necessariamente nada de mau nem necessariamente nada de excepcional (talvez se tivesse sido outro realizador…) ; é, apenas, um bom filme. O argumento não merecia, de forma alguma, o Globo de Ouro, e o filme em si não merece toda a expectativa de que é alvo. Uma nomeação ao Óscar de Melhor Filme é já óbvia, resta pensar se é merecida.

Mas isso não invalida em nada o facto de Nas Nuvens ser um bom filme e, nesta era em que para todos os efeitos as tecnologias ocupam  cada vez mais o lugar do Homem, heis uma obra que fala da forma como, para o bem e para o mal, precisamos todos uns dos outros. Talvez pudesse ter ido mais longe, mas Reitman volta a provar aquilo que já em Juno tinha provado (e de forma bem melhor): há aqui talento.

A ver sem expectativas.

7/10

Ficha Técnica

Título original: Up in the Air
Realizado por: Jason Reitman
Escrito por:
Jason Reitman e Sheldon Turner, a partir do livro de Walter Kirn
Elenco: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick e Jason Bateman.

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