Avatar: Admirável Mundo Novo

Gonçalo Trindade 16 Dezembro 2009

O Cinema nasceu como fascínio pela imagem em movimento. Quando Lumiére e Meliés começaram a fazer filmes, não se preocupavam em contar histórias: preocupavam-se em fazer explorações visuais. Meliés, ilusionista francês, fez aquele que é considerado o primeiro filme que se aproxima do género de ficção-científica; chamava-se La Voyage Dans la Lune, e data de 1902. O primeiro grande filme de ficção-científica foi Metrópolis, obra-prima absoluta de Fritz Lang, e surgiu 25 anos depois. É, mesmo hoje em dia, um filme visualmente arrepiante. Tal como o foi Star Wars para a sua altura, criando a legião de fãs que ainda hoje se vê e sendo um verdadeiro marco.

Como já se anda a dizer por aí, Avatar é o nosso Star Wars.

O novo filme de James Cameron não vai revolucionar o Cinema. Não é uma obra-prima absoluta. E talvez não vejamos daqui a vinte anos adolescentes vestidos de Na’vis nem a usar citações do filme em conversas. Mas está bem lá perto (e quem sabe, talvez até vejamos…). E é, tal como foi o filme de Lucas, uma viagem a um mundo completamente novo. Aliás, é o mais literalmente do que o foi Star Wars. Porque em Avatar a personagem principal não é a de Sigourney Weaver nem a de Sam Worthington; a personagem principal é Pandora, o planeta onde decorre toda a acção. Avatar é, acima de tudo, uma memorável viagem a um mundo novo.

A história toda a gente sabe: Sam Worthington é Jake Sully, um marine paraplégico enviado para Pandora com o intuito de participar no Projecto Avatar, que consiste em colocar a mente de seres humanos em corpos criados geneticamente a partir do ADN misturado de nativos do planeta (os Na’vi) com o de seres humanos. Se por um lado o projecto é criado com o intuito de estabelecer laços diplomáticos com os Na’vi (objectivo esse de Grace Augustine, a encarregada do projecto interpretada por Sigourney Weaver), há quem se tente aproveitar do projecto de outras formas; tal é o caso do Coronel Miles Quaritch (interpretado na perfeição absoluta por Stephen Lang) que, com intenções no mínimo duvidáveis, usa Sully como espião no meio dos Na’vi.

O que se segue é uma história simples, directa, com lições morais previsíveis (mas nem por isso menos interessantes), num argumento bom o suficiente apenas para a história que é. Cameron é mais visionário que contador de histórias, e efectivamente o filme tem uma narrativa que por vezes falha em alguns aspectos (por vezes parece demasiado fragmentado, por exemplo). Por falta de desenvolvimento, o espectador não cria com algumas das personagens a ligação que Cameron obviamente quer que crie e, dando um exemplo, perto do final há uma montagem a mostrar o desfecho de algumas personagens que acaba por não ter o impacto esperado. Mas o espectador cria uma ligação com as personagens e o universo em si, e quando a batalha final (de que já aqui voltarei a falar) chega, ficamos verdadeiramente preocupados com aquelas personagens que acompanhámos ao longo do filme.

Worthington é competente, tal como Weaver (que não aparece tanto quanto muitos talvez esperam), mas Stephen Lang é fenomenal, tal como Zoe Saldana (que interpreta a Na’vi Neytiri). Sim, Zoe Saldana nunca aparece em carne-e-osso no filme. Mas a tecnologia criada por Cameron é tão incrível que podemos dizer o contrário. Por vezes o espectador chega mesmo ali a esquecer-se que ela não está ali, que aquilo não é maquilhagem. As expressões faciais, os gestos… é verdadeiramente algo que tem de ser visto. Zoe Saldana está, efectivamente, no filme. Tal como todos os restantes actores que interpretam personagens Na’vi.

E se o motion-capture está assim tão bom (repito, é realmente algo que tem de ser visto), o que dizer do 3D? Avatar transforma a tela numa verdadeira janela. Por várias vezes me passou esta analogia pela cabeça enuquanto via o filme, e não há mesmo outra forma de o dizer. Em Avatar, o espectador está lá.

Se uma personagem anda por um corredor, nós também andamos; se uma personagem olha por uma janela, nós também olhamos. O 3D está sempre presente de forma realista, nunca intrungente ou incomodativa. E pela primeira vez vemos o 3D usado como meio de realmente nos colocar dentro do filme, não apenas como adereço visual para usar em grandes explosões ou quando uma personagem estica algum dedo. O 3D está sempre presente, sempre realista e não demora muito até o espectador se considerar realmente dentro do que está a ver. Raios, até as legendas vão mudando de lugar ao longo do filme para não interferirem com o efeito!

Não há outra forma de o dizer: o ecrã é uma janela. Não só pelo 3D (que está, repito, usado de forma genial), mas pelos efeitos visuais em si. Tudo é real. Cada pequeno insecto do planeta, cada pequena planta: tudo está espantosamente detalhado. A cor, os movimentos, os efeitos de luz e de sombra… Cameron criou um mundo. E é aí que reside a beleza de Avatar e o triunfo da obra: o cineasta não se preocupou em fazer um filme de acção ou de aventura, preocupou-se antes em realmente criar um planeta chamado de Pandora e a levar lá o espectador. E se as cenas de acção, quando as há (e não há assim tantas, felizmente… não são precisas), são realmente espectaculares (a meia-hora final realmente enche o olho, numa incrível batalha final que tem alguns dos momentos visualmente mais arrebatadores do cinema moderno), o que interessa mais são os ambientes criados, as paisagens, as criaturas.

Se nos levassem para um novo planeta, todo ele exótico e de uma beleza inexplicável, seria assim. Porque em Avatar veremos possivelmente algumas das mais belas visões que a Ficção-Científica, com todos os mundos criados ao longo da história do Cinema, alguma vez nos deu. Por vezes Avatar mais parece um documentário do Discovery Channel num outro planeta qualquer. Tudo é espectacularmente realista. Há ali visões realmente memoráveis.

E se a criação de um planeta inclui tudo isto, a criação de novos ambientes, novas criaturas, novas paisagens, etc, também inclui certamente a criação de um novo povo. E os Na’vi são uma cultura em si, repleta de misticismos e com a sua própria história, com a sua própria língua… é um povo que acreditamos realmente poder existir, e, perto do final, com o qual sentimos verdadeiramente uma ligação emocional. Aqui os humanos são os vilões que, num paralelismo actualmente muito visível neste género, tentam destruir um novo e maravilhoso mundo. Avatar é, para todos os efeitos, um filme consciente da situação actual do mundo. É-o como muitos filmes antes já o foram e é-o de forma previsível, mas não perde mérito de o ser.

Este não é um filme perfeito. Narrativamente falando e em termos de argumento no geral, tem as suas falhas. Mas a história em si e o argumento são no geral bons, e envergonham muitos outros filmes que andam por aí. Quem for ver Avatar apenas pelo impacto visual, sairá surpreendido com o facto de realmente ter sentido uma ligação emocional com o que se passava no ecrã; e sairá ainda mais satisfeito com tudo o resto. Quando o filme acaba, o espectador sente ter visto algo verdadeiramente monumental, uma obra fruto de uma ambição heróica. E, vá-se lá saber como, Cameron conseguiu. Avatar cumpre o que se espera: é algo como nunca antes foi visto, algo que verdadeiramente ficará na memória. Perfeito? Não. Revolucionário? Não. Mas é inovador. Leva o Cinema numa nova direcção: o uso de todos os meios técnicos disponíveis para a transformação de um filme numa passagem para um novo mundo (de uma forma literal). Porque o que interessa aqui é mesmo Pandora. Ver Avatar não é ver, é mergulhar, é ser levado a.

Ao fim de contas, Avatar é uma viagem. Uma viagem como nunca antes foi vista no Cinema, onde finalmente alguém usou toda aquela tecnologia e todos os milhões que se investem tanto nesta arte que se transformou em indústria e usou tudo isso de forma consciente, sábia, ambiciosa e inovadora. Não é fácil fazer algo assim, algo tão grandioso como este filme. Esta é uma obra que transpira suor e lágrimas, um filme que, mais uma vez, mostra Cameron como um dos maiores visionários do Cinema actual. Toda uma idade do Cinema, todos os avanços tecnológicos de uma era, culminam nisto. E quando se sai da sala de Cinema, dá mesmo vontade de dizer: “Sim. Finalmente alguém se atreveu a fazê-lo. E fê-lo. Fê-lo muito bem“.

Para esta geração, será um marco. Há-de haver o Avatar 2, e talvez até mais. No final, o espectador quer voltar a Pandora; quer voltar a ser levado para este admirável novo mundo. Avatar é, efectivamente, um evento. E com todo o direito de o ser. Porque, ao fim de contas, e depois de toda esta grande crítica, tudo se resume a isto: o filme é mesmo bom.

9/10

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4 Comentários em "Avatar: Admirável Mundo Novo"

  1. Tweets that mention Espalha-Factos » Blog Archive » Avatar: Admirável Mundo Novo -- Topsy.com a Qui, 17th Dez 2009 12:24 

    [...] This post was mentioned on Twitter by Pedro Afonso, Espalha-Factos. Espalha-Factos said: Novidade: Avatar: Admirável Mundo Novo: Esta é uma obra que transpira suor e lágrimas, um filme que, mais … http://tinyurl.com/yhf3kn3 [...]

  2. ricardo reis a Qui, 17th Dez 2009 13:33 

    Ainda so li as ultimas frases da review, visto que ainda não vi o filme, mas as ultimas frases fazem-me ainda mais querer ir ver o filme ao cinema :D

  3. Espalha-Factos » Blog Archive » Estreia da Semana: Avatar a Qui, 17th Dez 2009 14:44 

    [...] Transportando os espectadores para o mundo da imaginação, Avatar combina a acção, o romance, a ficção e o drama, contando com as participações de Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez e Giovanni Ribisi. É já considerado um dos melhores filmes dos últimos tempos, e promete tornar-se um dos preferidos dos portugueses. O Espalha-Factos esteve na antestreia do filme – podes ler a crítica aqui. [...]

  4. mauricio a Ter, 29th Dez 2009 14:47 

    achei otimo