Aquele Querido Mês de Agosto

Pedro Miguel Coelho 1 Setembro 2009

Aquele Querido Mês de Agosto é, segundo o que os outros críticos já disseram, uma das surpresas mais agradáveis no que diz respeito ao cinema português.

Eu desconfiei. Afinal, o que é que de fantástico poderia ter um filme feito com poucos meios e tão baseado na cultura pimba?

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A cena inicial, que mostra um galinheiro a ser observado por uma raposa leva a uma observação estranha por alguém que estava na sala: “Em Agosto, as raposas comem as galinhas”. E basicamente, é em Agosto que tudo acontece.

Em Agosto, como diz na sinopse: os emigrantes regressam à terra, lançam-se foguetes, controlam-se fogos, as pessoas cantam nos karaokes, bebem cerveja, caçam javalis, saltam das pontes e fazem filhos. E tudo isto é ainda assim, redutor, neste Agosto, conhecem-se as pessoas, as personagens reais, de um Agosto que nos pertence a todos, que pertence a Portugal, um país ainda manifestamente “interior” e que não larga a tradição do bailarico, das cantigas à desgarrada. E Miguel Gomes é competente, na primeira parte do filme mostra-nos isto tudo, com discrição e com pureza, não fazendo que as câmaras sejam demasiado invasivas ao ponto de as pessoas se retraírem, vemos Agosto com os nossos olhos, e identificamos toda aquela gente com tantos outros que conhecemos. Afinal, quem não ouviu histórias de uma festa da aldeia lá num longínquo mês de Verão?

Até aqui, o epíteto de “filme do ano”, já estava em parte justificado. É ainda nesta primeira parte que são apresentadas as pessoas que Miguel Gomes promete dar ao seu produtor caso ele lhe traga meios de Lisboa para fazer o filme, e conhecemos Sónia Bandeira, a rapariga que nas férias fazia vigia no cimo da serra, para evitar os incêndios, e que será a protagonista do filme, e ainda Fábio Oliveira, o músico e jogador de hóquei de Oliveira do Hospital, relevado ao posto de ídolo local com minutos de elogios por parte do seu treinador. E isto é só o aquecimento.

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Entramos, atravessando a ténue linha da realidade e do faz-de-conta, na intriga de Aquele Querido Mês de Agosto. Tânia (Sónia Bandeira) canta no conjunto Estrelas do Alva, e fá-lo desde os 13, agora tem 15, mas aparenta ter mais, é o orgulho do pai (Joaquim Carvalho), pessoa respeitada no meio e dono do respectivo conjunto, que a criou sozinho, fruto da mulher ter desaparecido no mundo, supostamente raptada por extraterrestres. Em Agosto, como é habitual, chegam os emigrantes e quem vive na cidade grande mas não esquece a terra de origem, Hélder (Fábio Oliveira) é o primo de Lisboa, é músico e tem um ouvido fenomenal, ele começa, nestas férias, a tocar no conjunto da família, e chama também a atenção da prima, quem parece não gostar muito é mesmo o pai.

Amor e música”, sim, é isso. Ambos se cruzam muito bem no enredo do filme, que é extremamente bem filmado, conseguindo, a cada cena, ser absorvido o ambiente envolvente daquele meio regional, com os romances a serem acompanhados pela música do baile de verão, algo foleira, mas tremendamente caracterizadora daquilo que é esta época do ano nos meios rurais do interior nacional.

A realização alcança o ambiente, as pessoas, as músicas e as histórias. É quase incorrigível e consegue o mais importante no tipo de filme que é – a familiarização do público com o que está ali a ser fielmente retratado. A opção de ter “pessoas e não actores” no elenco do filme também foi uma aposta ganha, conseguiu-se desenhar um retrato fiel. No entanto, não é alcançada a perfeição, a intriga por vezes perde-se em factos mal explicados, ou em sequências despropositadas, e existe algum abuso no que respeita à música popular, que se prolonga durante longos minutos que chegam a ser de sofrimento para quem assiste, para além de uma dificuldade enorme que existe em distinguir a ficção e o documentário, por parte do espectador comum. As falhas de continuidade com o cabelo do protagonista, que tanto é comprido como curto acabam por ser deixadas de lado por quem vê o filme de boa vontade…

O desempenho artístico dos actores dificilmente pode ser questionado, porque todos foram fiéis àquilo que são, numa quase-fusão entre as personagens e a personalidade do actor. A realçar, em termos de representação, o maior à vontade de Fábio Oliveira e Joaquim Carvalho (que não é actor mas sim director de produção) em relação aos seus parceiros de cena, embora tenha sido praticamente linear a performance de todos.

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Depois da televisão-realidade, o cinema-realidade. O sol de Agosto invade-nos, quer estejamos em Novembro ou em Março, Aquele Querido Mês de Agosto é envolvente. Quem não conhece um casal de idosos que passa a vida a discutir pelas mais pequenas coisas, mas que assim é feliz? Quem não conhece tantas histórias de amor que começaram num bailarico de verão? Quem nunca ouviu falar de um herói local que era capaz dos mais incríveis feitos?

No fim, num riso solto depois das lágrimas, reparamos que está ali novamente a translúcida linha entre a ficção e o documentário. Inicia-se uma discussão sobre o diferente som captado pelos micros do sonoplasta, para dar mais um ânimo fantástico à película, que alguns não vão conseguir entender. Aquele Querido Mês de Agosto consegue fundir géneros, desfazer mitos e quebrar todos os estereótipos e preconceitos. Quem pensa que o cinema tem de ter sempre uma storyline definida, uma realização comum e os planos de sempre, engana-se. Miguel Gomes e o cinema português foram além do óbvio, e sim, concordo, isso nem sempre é fácil de sentir ou perceber.

E cada Agosto é diferente do outro, embora se mantenham as mesmas procissões e romarias, haja mais bailaricos, e se conheçam outros emigrantes. Agosto é feito de pessoas, os dias são quentes e as noites não arrefecem, aprende-se, em Agosto, vivendo.

Avaliação: 9/10.

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